Mudei de bairro. Na verdade, essa é a primeira vez que moro efetivamente em um bairro. Sempre fui da turma do centro valorizado em todos os cantos por onde passei.
O centro tem uma vibe diferente. Há lojas de grifes, prédios luxuosos, calçadas arborizadas, os restaurantes mais caros e badalados da cidade. Dependendo, os turistas também completam o cenário. À noite, as casas iluminadas e cada um dentro do seu quadrado.
Não que a minha família fosse rica. Podemos dizer que a compra de um terreno quando a rua sequer tinha asfalto foi uma jogada de mestre de Deus, há 40 anos.
Já no meu novo bairro, ou melhor no meu primeiro bairro, a vida toca em um ritmo diferente. Os vizinhos ainda se sentam nas calçadas em suas cadeiras de fio para prosear. Os pequenos comércios aos montes fazem a alegria do consumidor com os preços lá embaixo. O litro do sorvete custa dez reais.
À noite, as crianças criam campos imaginários de futebol com traves de chinelos. Na rua mesmo. As pessoas caminham na avenida em uma ciclovia por onde curiosamente não passam bicicletas e longe de um parque de caminhada onde ninguém frequenta.
Apesar da vibe ser mais família... Ninguém cumprimenta e foi essa a maior diferença.
Dei alguns "boa noite" e balanços de cabeça ao longo do trajeto, mas meus parceiros de ciclovia continuaram sua rota normalmente sem acenar. Até que um homem passou à frente e encontrou uma conhecida. Pronto, a cordialidade veio e foi aí que eu percebi:
Ninguém me cumprimenta.
As pessoas não me conhecem, não sabem onde eu moro, nem meu nome, nunca me viram ali. Não cumprimentam desconhecidos. No centro, a gente acena pra todo mundo, sem distinção, mas no bairro não. No bairro é preciso ter uma história.
Como eu acabei de decorar meu endereço, saí de casa muda e voltei calada. E, pensativa, cruzei três campos imaginários de futebol, porque aqui a vida e a distância são contadas de uma forma diferente.
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